Peace Hack Camp 2016: hackeando pela paz

Por Sil Bahia*

Em novembro estivemos na Colômbia, participando da segunda edição do Peace Hack Camp (PHC) junto a 200 parceiros de 15 países. Durante cinco dias o pequeno pueblo de Salento, localizado na região do Quindío, foi um lugar de intensas trocas do grupo focado em construir caminhos para a paz a partir de soluções tecnológicas que contemplem os direitos humanos. A diversidade de saberes somadas às culturas e experiências de pessoas de lugares tão diversos como Sudão do Sul, Palestina, Brasil, Colômbia, Finlândia, Alemanha e Aruba foram o ponto alto do PHC.

O PHC é um laboratório de inovação que mistura workshops, acampamento e talks no intuito de construir junto com a população local soluções de baixo para cima a partir do compartilhamento de metodologias e tecnologias abertas. A proposta principal do Peace Hack Camp é conectar as comunidades locais a especialistas, makers, hackers, ativistas e educadores promovendo uma grande rede de trocas de saberes. O evento teve a primeira edição em 2015 no Sudão do Sul, organizada pelo Kapital Movie collective, e a segunda agora na Colômbia, co-organizada por Martin Restrepo, Erica Casado e apoiada pela rede Global Innovation Gathering (da qual fazemos parte desde 2013).

A programação do encontro mesclou atividades simultâneas. Os workshops oferecidos durante os dias de PHC abordaram noções de upcycling; empreendimento social; design thinking; empoderamento feminino; jornalismo cidadão; games; liberdade e segurança digital, realidade virtual, entre outros, além de talks sobre “Direitos Humanos e a Guerra às Drogas” e “Liberdade na Internet” que aconteceram em diferentes espaços do pueblo de Salento.

Saiba mais sobre os projetos desenvolvidos no PHC 2016 em: https://makezine.com/2016/12/14/3d-printing-peace-aruba/

Da “delegação brasileira” eu era a única mulher e minha missão era representar o Olabi no encontro, realizando o workshop sobre “Empoderamento Feminino e Tecnologias para a Liberdade”, na Reserva Ambiental Rosa dos Ventos, espaço feminista gerido pela ativista Margarida Rosa. Esse era o único workshop focado na questão de gênero e foi uma oportunidade ímpar trocar experiências com mulheres colombianas que assim como nós, vivem diferentes formas de opressão apenas por serem mulheres. Além das mulheres participantes na oficina, uma coisa que me chamou atenção foi audiência, composta em quase 50% por homens.

Apresentei o trabalho que realizamos no Olabi e falei sobre como a apropriação de novas e velhas tecnologias podem contribuir para a autonomia do cidadão comum, e como as mulheres negras no Brasil vem se apropriando, sobretudo das tecnologias de comunicação, para criarem novas narrativas sobre si, tornando visíveis suas causas. Mostrei alguns exemplos que considero relevantes nesse campo, como exemplo a campanha criada pela ONG Criola, “Racismo virtual consequências reais” que discute as consequências na vida de quem sofre racismo na internet. A plataforma Alyne, criada também pelas mulheres da Criola, que tem como objetivo mobilizar a sociedade na rede em prol das causas das mulheres negras. Falei também sobre a plataforma Afroflix, que disponibiliza conteúdo audiovisual que tenha pelo menos uma pessoa negra como realizadora, criado pela cineasta Yasmin Thayná e da qual sou colaboradora.

Discutimos sobre como as tecnologias podem contribuir para a criação de novas narrativas mas também o quanto é importante que nós saibamos além de consumir, desenvolver tecnologias, partindo do entendimento de que as tecnologias estão impregnadas da visão de mundo de quem as cria. E como isso faz diferença no uso e entendimento que temos.

Finalizei a oficina com a exibição do curta-metragem KBELA, realizado a partir das redes da internet. Foi uma comoção geral. É incrível perceber como o KBELA, que conta a história de uma menina que se descobre negra a partir da sua relação com seu cabelo crespo, é capaz de se conectar com mulheres de qualquer parte do mundo.

Além de toda a experiência que acumulamos durante esses dias, foi interessante perceber que, quando a gente sai do nosso país nos deparamos com muitas outras realidades que são tão próximas a nossa, mas que também se diferem demais. A Colômbia é um país muito parecido com o Brasil em aspectos positivos e negativos. Tem uma diversidade incrível, cheia de cores e cheiros, pessoas gentis e receptivas que sofrem de mazelas parecidas com as nossas. Além dos problemas é possível perceber outro ponto que nos une: o desejo comum de transformar nossas realidades.

No mesmo dia que acabou o Peace Hack Camp o governo colombiano assinou o Acordo de Paz. A notícia chegou em meio ao encerramento do evento, assim como a chuva, que deu uma trégua apenas durante os dias do encontro e que voltou com força total ao final. A simbologia da assinatura do Acordo de Paz se conecta ao objetivo maior do PHC: a possibilidade de seguir acreditando e transformando, na intenção de construir um mundo melhor a partir da empatia. E que a maior revolução que podemos fazer é promover oportunidades que multipliquem os saberes, conectando as pessoas. O Peace Hack Camp demonstrou que quanto mais misturado e plural, mais efetiva pode ser a mudança que queremos. Obrigada pela oportunidade de crescer junto!

*Sil Bahia é coordenadora no Olabi, jornalista, mestre em cultura e territorialidade pela UFF e colaboradora da RodAda Hacker, do KBela e do Afroflix.

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